Em resumo
  • Abaulamento, protrusão e desgaste de disco aparecem com frequência em ressonâncias de pessoas que não sentem dor.
  • Por isso, um achado no exame não explica a dor por conta própria: ele precisa combinar com a história e com o exame físico.
  • O contrário também acontece: exame "quase normal" não significa que a dor não é real.

Alguém sente dor nas costas, faz uma ressonância e lê o laudo em casa: "abaulamento discal", "protrusão", "alterações degenerativas". Em poucos minutos, a dor ganha um nome assustador e, muitas vezes, uma sentença: "então é isso, vou ter que operar".

Eu entendo o susto. Mas uma das primeiras coisas que eu explico no consultório é que o exame não conta a história inteira. Ele mostra uma fotografia da coluna. Não mostra de onde vem a sua dor.

O que a ressonância mostra em quem não sente dor

Em 2015, uma revisão sistemática reuniu 33 estudos com mais de 3 mil pessoas sem dor nas costas que fizeram tomografia ou ressonância da coluna. O objetivo era simples: ver o que aparece no exame de quem não tem queixa nenhuma.

O resultado chama atenção. O abaulamento de disco apareceu em 30% das pessoas de 20 anos e em 84% das de 80 anos. A protrusão de disco, em 29% aos 20 anos e 43% aos 80. O desgaste do disco foi ainda mais frequente.

Os autores concluíram que muitos desses achados fazem parte do envelhecimento normal e não estão necessariamente ligados à dor. E reforçaram o ponto principal: a imagem precisa ser interpretada junto com a situação clínica de cada pessoa.

Abaulamento

O disco "estufa" de forma difusa. Muito comum com a idade, inclusive em quem não tem dor.

Protrusão

Uma parte do disco avança um pouco além do limite. Pode ou não encostar em um nervo.

Desgaste (degeneração)

O disco perde água e altura ao longo da vida. É frequente e, sozinho, não define tratamento.

Então o exame não serve para nada?

Serve, e muito. Mas ele responde a uma pergunta específica: o que eu suspeito pela conversa e pelo exame físico aparece na imagem? Quando a resposta é sim, o exame ajuda a confirmar e a planejar. Quando não combina, ele pode confundir.

Por exemplo: uma pessoa com dor que desce pela perna esquerda, com alteração de sensibilidade e reflexo daquele lado, e uma hérnia que comprime exatamente o nervo esquerdo correspondente. Aí a imagem e a clínica conversam.

Agora imagine uma dor nas costas difusa, sem irradiação, e um laudo com três abaulamentos. Não é porque eles estão no papel que são os responsáveis pela dor. Talvez a origem seja outra, e tratar o laudo seria tratar a coisa errada.

Dra. Adriana Abrão
"A imagem, sozinha, não decide tratamento."Dra. Adriana Abrão, neurocirurgiã

Como eu uso o exame na consulta

A imagem, sozinha, não decide tratamento. Por isso, antes de abrir a ressonância, eu quero ouvir a história.

Onde dói, para onde a dor vai, o que piora, o que alivia, como a dor mudou com o tempo, como está o sono e o dia a dia.

Depois vem o exame físico: força, sensibilidade, reflexos, testes que irritam ou aliviam o nervo.

Só então eu olho a imagem com uma pergunta na cabeça. É essa combinação que me permite dizer se o achado explica a dor ou se é um achado comum, sem relação com ela.

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Mais exames não substituem uma boa pergunta

Quando a dor não melhora, é natural querer repetir a ressonância, ou pedir uma nova de outra região. Às vezes isso é necessário. Mas, sem uma pergunta clara, um exame novo tende a trazer novos achados, e não necessariamente novas respostas.

Já vi pessoas acumularem pastas de laudos, cada um com um termo diferente, e saírem de cada consulta mais preocupadas. O que faltava não era imagem. Era alguém juntar as peças e explicar o que cada achado significa, e o que não significa.

O outro lado: exame quase normal, dor real

Também acontece o contrário. Muita gente com dor lombar crônica ouve que "o exame não mostrou nada" e sai com a sensação de que não foi levada a sério. Isso não significa que a dor é imaginária.

Há dores que vêm de articulações, músculos, nervos ou da forma como o sistema nervoso passou a processar o estímulo, e nem tudo isso aparece com clareza numa imagem. Eu acredito na sua dor. O exame é uma parte da investigação, não o veredito.

Nesses casos, eu volto ao começo: como a dor se comporta ao longo do dia, o que a desencadeia, como está o sono, o humor, o trabalho.

Muitas vezes a resposta aparece na história, e não em mais uma imagem. Quando um novo exame é necessário, ele é pedido com um objetivo claro.

O que levar para a consulta

  • As imagens do exame, não só o laudo, quando for possível.
  • Exames anteriores, para comparar a evolução.
  • Uma lista do que você já tentou e do que ajudou ou não ajudou.
  • Uma descrição simples da sua dor: onde começa, para onde vai, quando piora.

Com essas informações, o laudo deixa de ser um texto assustador e passa a ser uma peça de um raciocínio.

Em casos como a hérnia de disco lombar, é esse raciocínio que define se o caminho é acompanhar, tratar sem cirurgia ou considerar um procedimento. A resposta varia de pessoa para pessoa.

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Referências

  1. Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, et al. American Journal of Neuroradiology. 2015;36(4):811-816. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. Disponível em: https://doi.org/10.3174/ajnr.A4173

Dra. Adriana Abrão — Neurocirurgiã — CRM-GO 19.199 · RQE 15.914. Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou promessa de resultado. Não substitui avaliação médica individualizada.