Em resumo
  • Dor nas costas que desce pela perna, abaixo do joelho, costuma indicar irritação de uma raiz nervosa: é a ciática.
  • As causas mais comuns são hérnia de disco e estreitamento do canal, e o padrão da dor ajuda a diferenciar.
  • Perda de força, dormência entre as pernas ou alteração para urinar pedem avaliação no mesmo dia.

"Doutora, é dor nas costas, mas ela vai descendo." Ouço essa frase com muita frequência.

A pessoa aponta a lombar, depois passa a mão pela nádega, pela parte de trás da coxa, e às vezes vai até o pé. Para ela, é tudo a mesma dor.

Para mim, esse caminho muda a investigação. Nem toda dor nas costas é igual, e a dor que desce para a perna costuma estar contando algo sobre um nervo, não só sobre músculos ou articulações.

Por que a dor desce

Da coluna lombar saem raízes nervosas que formam o nervo ciático e seguem pela perna até o pé. Quando uma dessas raízes é comprimida ou inflamada, a dor é sentida ao longo do trajeto do nervo, e não só no ponto onde está o problema.

Esse quadro tem nome: radiculopatia, ou ciática. É por isso que alguém pode ter o problema na coluna e sentir mais dor na panturrilha do que nas costas.

Como costuma ser a dor do nervo

  • Desce como uma faixa, muitas vezes passando abaixo do joelho.
  • Vem como choque, queimação ou fisgada, às vezes com formigamento ou dormência.
  • Pode piorar ao tossir, espirrar ou ficar muito tempo sentado.
  • Às vezes vem com fraqueza: o pé "bate" no chão, ou fica difícil ficar na ponta dos pés.

Isso não significa que toda dor na perna vem da coluna. Quadril, joelho, circulação e outros nervos também podem doer na perna. Separar uma coisa da outra é parte do meu trabalho, e começa na conversa e no exame físico.

Dra. Adriana Abrão
"O primeiro passo é entender de onde essa dor vem."Dra. Adriana Abrão, neurocirurgiã

Também é comum achar que, se a dor é mais forte na perna, o problema está na perna.

Já vi gente tratar o joelho ou o quadril por meses quando a origem estava em um nervo da coluna lombar. O caminho inverso também acontece, e por isso a avaliação precisa olhar o conjunto.

As causas mais comuns

Hérnia de disco

Mais comum em adultos jovens e de meia-idade. A dor costuma aparecer de forma mais súbita e pode piorar sentado ou ao inclinar o corpo para frente.

Estreitamento do canal

Mais comum depois dos 60 anos. A perna pesa, dói ou formiga ao caminhar e ficar em pé, e costuma aliviar ao sentar ou inclinar o corpo para frente.

Na hérnia de disco lombar, parte do disco sai do lugar e encosta na raiz. No estreitamento do canal, o espaço por onde passam os nervos diminui com o tempo. Há também outras causas, menos frequentes, que a avaliação ajuda a descartar.

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Como eu investigo

O primeiro passo é entender de onde essa dor vem.

Eu pergunto onde começou, até onde desce, em que posição piora e alivia, se há formigamento e em que parte do pé. O desenho que a pessoa faz da própria dor já sugere qual raiz pode estar envolvida.

No exame físico, testo força, sensibilidade e reflexos, e faço manobras que esticam o nervo.

Quando o quadro pede, a ressonância entra para confirmar a suspeita. Ela precisa combinar com o que encontrei na avaliação, porque achados no exame são comuns mesmo em quem não tem dor.

O que costuma acontecer depois

Muitas pessoas com ciática por hérnia de disco melhoram nas semanas seguintes com tratamento conservador: controle da dor, orientação de atividade, fisioterapia e, em alguns casos, bloqueios guiados.

A cirurgia fica para situações específicas, como perda de força, sinais de alerta ou dor que não cede e limita a vida mesmo com um tratamento bem feito. A resposta varia de pessoa para pessoa, e a decisão é tomada junto com você.

Quando procurar atendimento sem demora

  • Perda de força que aparece ou piora rapidamente na perna ou no pé.
  • Dormência na região entre as pernas, nas nádegas ou na parte interna das coxas.
  • Dificuldade para urinar, perda de controle da urina ou das fezes.
  • Dor nas costas com febre, perda de peso sem explicação ou após uma queda importante.

São situações pouco comuns, mas que pedem avaliação em pronto atendimento no mesmo dia, para não perder tempo de tratamento.

O que você pode observar até a consulta

Algumas anotações simples ajudam muito na avaliação. Elas não substituem o exame, mas tornam a conversa mais precisa e o raciocínio mais rápido de construir.

  • Até onde a dor desce e em que parte do pé formiga, se formigar.
  • Em que posição piora: sentado, em pé, caminhando, deitado.
  • Se tossir ou espirrar desperta a dor na perna.
  • Se você percebeu alguma fraqueza, como tropeçar mais ou ter dificuldade para subir escadas.
  • O que já tomou ou fez, e se ajudou.

Não espere a dor virar rotina

Dor que desce para a perna não precisa ser tratada como "só mais uma dor nas costas" nem como motivo de pânico. Ela merece uma investigação bem feita, para que o tratamento seja escolhido pela causa, e não pelo palpite.

Quanto mais cedo esse raciocínio começa, mais clara fica a conversa sobre os caminhos possíveis.

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Referências

  1. Peul WC, van Houwelingen HC, van den Hout WB, et al. New England Journal of Medicine. 2007;356(22):2245-2256. Surgery versus prolonged conservative treatment for sciatica. Disponível em: https://doi.org/10.1056/NEJMoa064039
  2. Katz JN, Zimmerman ZE, Mass H, Makhni MC. JAMA. 2022;327(17):1688-1699. Diagnosis and Management of Lumbar Spinal Stenosis: A Review. Disponível em: https://doi.org/10.1001/jama.2022.5921

Dra. Adriana Abrão — Neurocirurgiã — CRM-GO 19.199 · RQE 15.914. Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou promessa de resultado. Não substitui avaliação médica individualizada.