Em resumo
  • Muita gente chega à consulta depois de anos de remédios, fisioterapia e exames, achando que não há mais o que fazer.
  • Muitas vezes o que faltou não foi tratamento, foi direção: entender qual é o mecanismo da dor.
  • Com o diagnóstico mais claro, o plano pode mudar, sem promessa e respeitando o que cada pessoa já viveu.

A pasta é grossa. Exames de vários anos, receitas de médicos diferentes, relatórios de fisioterapia. A pessoa senta, respira fundo e diz: "Doutora, eu já tentei de tudo. Todo mundo me falava que isso não tinha tratamento."

Eu não duvido do cansaço de quem diz isso. Mas, quando olho a pasta com calma, frequentemente encontro outra história. Talvez o problema não seja falta de tratamento. Talvez seja falta de direção.

Muitas tentativas, a mesma direção

"Tentar de tudo" costuma significar ter feito várias coisas parecidas. Trocar um remédio para dor por outro do mesmo tipo. Repetir a fisioterapia com o mesmo foco. Fazer um exame novo esperando que ele, sozinho, explique a dor.

São muitas tentativas, mas todas apontando para o mesmo lugar. Se esse lugar não é a origem da dor, é natural que nada pareça funcionar.

Isso não é culpa do paciente. Dor crônica é complexa, e nem sempre o caminho até ela é organizado. Por isso eu gosto de recomeçar pela pergunta mais básica: de onde vem essa dor, de verdade?

Dra. Adriana Abrão
"Talvez o problema não seja falta de tratamento. Talvez seja falta de direção."Dra. Adriana Abrão, neurocirurgiã

Por que o mecanismo da dor muda tudo

Duas pessoas podem dizer "dor nas costas" e ter dores completamente diferentes. Uma vem da articulação da coluna. Outra vem de um nervo comprimido. Uma terceira pode ter relação com a forma como o sistema nervoso passou a amplificar os sinais de dor.

Cada uma dessas dores responde a tratamentos diferentes. Um remédio que ajuda muito em uma pode não fazer quase nada em outra. O mesmo vale para exercícios, procedimentos e cirurgia.

Dor de estrutura

Costuma ser descrita como peso, aperto ou dor que piora com certos movimentos ou posições.

Dor de nervo

Queimação, choque, formigamento ou dor ao toque da roupa. Pede tratamentos próprios para dor neuropática.

Dor mista

Muito comum em quem tem dor há anos: mais de um mecanismo ao mesmo tempo, o que exige um plano combinado.

Na dor mista, tratar só um dos mecanismos costuma trazer alívio parcial. A pessoa melhora um pouco, mas não o suficiente, e conclui que "nada funciona".

Tratamento não começa no procedimento. Começa no diagnóstico. Quando o mecanismo fica claro, muitas tentativas antigas passam a fazer sentido: entendemos por que funcionaram pouco e o que ainda não foi tentado.

O que eu reviso quando alguém diz que já tentou de tudo

  • A história da dor desde o início: onde começou, como era e como mudou.
  • Cada tratamento feito: por quanto tempo, em que dose e por que foi interrompido.
  • Se o exame de imagem combina com o que a pessoa sente e com o exame físico.
  • O que a dor impede a pessoa de fazer hoje, e o que ela quer recuperar.
  • Sono, humor e rotina, que interferem na forma como a dor é sentida.

O exame não conta a história inteira. Uma alteração na ressonância pode não ter relação com a dor, e uma dor importante pode existir com exame pouco alterado. A decisão é clínica.

Já ouviu que a sua dor "não tem mais o que fazer"?

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Quando o diagnóstico fica claro, o que pode mudar

Às vezes a mudança é simples: trocar um remédio por outro de classe mais adequada ao tipo de dor, ajustar a dose ou retirar o que não está ajudando. Às vezes é redirecionar a reabilitação.

Em outros casos, entram recursos que a pessoa ainda não conhecia. O tratamento intervencionista da dor inclui bloqueios guiados por imagem, que podem ajudar tanto a confirmar de onde vem a dor quanto a aliviá-la por um período.

Para um grupo menor de pacientes, com dor persistente e diagnóstico bem definido, a neuromodulação pode entrar na conversa, só depois de avaliação criteriosa e de um período de teste.

Eu frequentemente digo para o paciente NÃO operar. Cirurgia só faz sentido quando existe uma causa que ela pode corrigir e quando os sintomas combinam com essa causa. Em todos os casos, a resposta varia de pessoa para pessoa.

O que eu não prometo

Que a dor vai desaparecer, que existe uma solução escondida ou que o próximo tratamento vai funcionar. Seria desonesto.

O que eu faço

Olho o caso com calma, organizo o que já foi tentado, busco o mecanismo da dor e proponho um plano com objetivos realistas.

Antes de desistir, uma pergunta a mais

Se você acha que já tentou de tudo, eu entendo o cansaço. Mas vale perguntar se alguém já explicou, com clareza, qual é o tipo da sua dor e por que os tratamentos anteriores falharam.

E se o cansaço for grande, tudo bem chegar dizendo isso. Parte do meu trabalho é organizar o caminho junto com você, sem pressa e sem julgamento pelo que já foi feito antes.

Se essa resposta ainda não veio, talvez o próximo passo não seja mais um remédio. Seja uma investigação com outra direção. Saiba mais sobre dor crônica e como ela é avaliada.

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Referências

  1. Raja SN, Carr DB, Cohen M, et al. Pain. 2020;161(9):1976-82. The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises. Disponível em: https://doi.org/10.1097/j.pain.0000000000001939
  2. Ministério da Saúde (Brasil). CONITEC. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica (versão resumida). Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/pcdt-resumido-da-dor-cronica

Dra. Adriana Abrão — Neurocirurgiã — CRM-GO 19.199 · RQE 15.914. Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou promessa de resultado. Não substitui avaliação médica individualizada.