Em resumo
  • Na hérnia de disco lombar, muitas pessoas melhoram sem cirurgia, com acompanhamento e tratamento conservador.
  • A cirurgia entra quando há perda de força, sinais de alerta ou dor que não melhora e limita a vida, mesmo com tratamento bem feito.
  • A decisão é individual: depende da sua história, do exame físico e do que faz sentido para você.

Muita gente chega ao consultório com a ressonância na mão e uma pergunta pronta: "Doutora, será que tem que operar mesmo?". Às vezes a pessoa já veio decidida a operar. Às vezes veio com medo de ouvir que precisa.

E muitas vezes sai surpresa com a minha resposta. Eu frequentemente digo para o paciente NÃO operar. Pode parecer estranho vindo de uma neurocirurgiã, mas é justamente por conhecer a cirurgia que eu sei quando ela não é o próximo passo.

Neurocirurgião não é sinônimo de cirurgia

Existe uma ideia comum de que procurar um neurocirurgião é o mesmo que marcar uma operação. Não é assim que eu trabalho. Meu trabalho não é operar. É descobrir o que faz sentido para você.

Antes de tratar, eu preciso entender. De onde vem essa dor? Ela desce para a perna? Piora sentado, em pé, ao tossir? Existe perda de força? Há quanto tempo isso começou, e o que já foi tentado? Essas respostas pesam tanto quanto a imagem.

O que costuma acontecer com a hérnia de disco

A hérnia de disco lombar acontece quando parte do disco entre as vértebras sai do lugar e pode irritar ou comprimir um nervo. Isso costuma causar a dor que desce para a perna, conhecida como ciática.

O que pouca gente sabe é que o corpo tem capacidade de reabsorver parte desse material.

Uma revisão sistemática de 2015 encontrou regressão espontânea da hérnia em boa parte dos casos acompanhados sem cirurgia, com taxas mais altas nos tipos de hérnia mais volumosos, que saem mais do disco.

Isso não significa que toda hérnia vai diminuir, nem que a dor some na mesma velocidade da imagem. Significa que, em muitos casos, existe espaço para tratar, acompanhar e reavaliar antes de pensar em operar.

Dra. Adriana Abrão
"Meu trabalho não é operar. É descobrir o que faz sentido para você."Dra. Adriana Abrão, neurocirurgiã

Operar cedo ou esperar: o que um estudo grande mostrou

Em 2007, um estudo holandês publicado no New England Journal of Medicine comparou pessoas com ciática intensa que foram operadas cedo com pessoas que seguiram em tratamento conservador, operando depois só se fosse necessário.

Quem operou cedo teve alívio da dor na perna mais rápido. Mas, depois de um ano, os resultados dos dois grupos foram parecidos. E, no grupo que esperou, 39% acabaram operando ao longo do acompanhamento; a maioria não precisou.

Esse dado ajuda a explicar a minha conduta. Há situações em que operar mais cedo faz sentido, e há situações em que esperar com acompanhamento é uma escolha segura. A conversa sobre isso precisa ser franca, com os prós e os contras de cada caminho.

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O que eu considero antes de indicar uma cirurgia

Não existe uma regra que sirva para todo mundo. Mas alguns pontos pesam bastante na minha decisão:

  • Se há perda de força progressiva na perna ou no pé.
  • Se a dor continua forte e limitante mesmo com tratamento bem conduzido por algumas semanas.
  • Se os sintomas combinam com o que aparece no exame. A imagem, sozinha, não decide tratamento.
  • O quanto a dor está tirando da sua vida: sono, trabalho, caminhar, cuidar de quem você ama.
  • O que você espera e o que você aceita, depois de entender os riscos e os benefícios.
Quando costumo propor esperar

Dor que está melhorando aos poucos, força preservada, sem sinais de alerta, com a pessoa conseguindo manter a rotina com tratamento e acompanhamento.

Quando a cirurgia entra na conversa

Perda de força, sinais de alerta, ou dor que não cede e compromete a vida mesmo depois de um tratamento conservador bem feito.

Também pesa o tempo.

Uma dor que começou há duas semanas e já está cedendo pede uma conduta diferente de uma dor que dura meses, piora e já tirou a pessoa do trabalho. Por isso eu acompanho a evolução, e não só a fotografia de um dia.

E quando a cirurgia é indicada?

Quando operar é o caminho, eu explico a técnica, os riscos e o que esperar da recuperação. Em casos selecionados, a cirurgia endoscópica da coluna permite tratar a hérnia por uma incisão pequena, com auxílio de uma câmera.

Ainda assim, técnica menos invasiva não é motivo para operar quem não precisa. A resposta varia de pessoa para pessoa, e a indicação vem da avaliação clínica, não da disponibilidade de um procedimento.

Quando procurar atendimento sem demora

  • Perda de força que piora na perna ou no pé (dificuldade para levantar a ponta do pé, por exemplo).
  • Dormência na região entre as pernas, nas nádegas ou na parte interna das coxas.
  • Dificuldade para urinar, perda de controle da urina ou das fezes.

Esses sinais são pouco comuns, mas pedem avaliação em pronto atendimento no mesmo dia, porque podem indicar compressão importante dos nervos.

Não operar não é ficar sem tratamento

Quando eu digo para não operar, não estou dizendo para a pessoa ir para casa e aguentar. O tratamento conservador inclui orientação, controle da dor, fisioterapia, ajuste de atividades e, em alguns casos, procedimentos como bloqueios guiados.

E não é uma decisão fechada: eu reavalio. Se a evolução não for a esperada, a gente conversa de novo. O mais importante é que a escolha seja feita com informação, sem pressa e sem medo.

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Referências

  1. Chiu CC, Chuang TY, Chang KH, et al. Clinical Rehabilitation. 2015;29(2):184-195. The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25009200/
  2. Peul WC, van Houwelingen HC, van den Hout WB, et al. New England Journal of Medicine. 2007;356(22):2245-2256. Surgery versus prolonged conservative treatment for sciatica. Disponível em: https://doi.org/10.1056/NEJMoa064039

Dra. Adriana Abrão — Neurocirurgiã — CRM-GO 19.199 · RQE 15.914. Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou promessa de resultado. Não substitui avaliação médica individualizada.