Em resumo
  • Existe vacina contra o herpes-zóster para adultos. Ela reduz bastante a chance de ter zóster e também a dor que pode ficar depois dele.
  • Quem tem 50 anos ou mais, ou tem imunidade baixa a partir dos 19 anos, deve conversar com o médico sobre ela.
  • Quem já teve zóster também pode se vacinar, no momento certo. A decisão é individual.

Quando falo de vacina no consultório, muita gente reage com surpresa: "vacina não é coisa de criança?". Os adultos costumam guardar a carteirinha de vacinação na gaveta da infância e esquecer que ela continua valendo.

No consultório, eu vejo de perto a dor que fica depois do zóster. Por isso, quando o assunto é prevenção, faço questão de perguntar: "você já conversou com seu médico sobre a vacina?". Na maioria das vezes, a resposta é não.

Por que o zóster preocupa quem trata dor

O herpes-zóster vem do mesmo vírus da catapora. Quem teve catapora carrega esse vírus adormecido em um nervo. Com a idade ou com a imunidade mais baixa, ele pode voltar e causar as bolhas em faixa, de um lado do corpo.

As bolhas passam. O problema é que, em parte das pessoas, a dor continua por meses ou anos: é a neuralgia pós-herpética.

Segundo o CDC, órgão de saúde pública dos Estados Unidos, ela atinge cerca de 10% a 18% de quem tem zóster, e o risco cresce com a idade.

Tratar essa dor é possível, e é o meu trabalho. Mas, quando dá para reduzir a chance de ela acontecer, vale a pena conversar sobre isso antes.

Quem deve conversar com o médico sobre a vacina

As recomendações do CDC incluem dois grupos principais para a vacina recombinante, que é feita a partir de uma parte do vírus e não contém vírus vivo:

Adultos com 50 anos ou mais

Com a imunidade saudável, mesmo que não se lembrem de ter tido catapora e mesmo que já tenham tido zóster. Não há idade máxima.

Adultos com 19 anos ou mais com imunidade baixa

Por doença ou por tratamento: quimioterapia, transplante, remédios que reduzem a imunidade, entre outros. Nesse grupo, a conversa envolve também o médico que acompanha a doença de base.

São duas doses, com intervalo que costuma ser de dois a seis meses. Em pessoas com imunidade baixa, o médico pode antecipar a segunda dose.

Dra. Adriana Abrão
"Quando dá para reduzir a chance de ela acontecer, vale a pena conversar sobre isso antes."Dra. Adriana Abrão, neurocirurgiã

Se você cuida de um pai ou de uma mãe com mais de 50 anos, essa conversa também é sua. Muitas vezes é o filho ou a filha quem leva a pergunta para a consulta e ajuda a organizar as doses.

O que os estudos mostram

No estudo que avaliou essa vacina em adultos a partir dos 50 anos, publicado no New England Journal of Medicine em 2015, a eficácia contra o zóster foi de cerca de 97%.

Segundo o CDC, em adultos de 50 anos ou mais a proteção contra a neuralgia pós-herpética é de cerca de 91%. Em pessoas com imunidade baixa, a proteção contra o zóster varia de 68% a 91%, conforme a condição.

Isso não significa que ninguém vacinado terá zóster. Significa que a chance cai de forma importante, e que a vacina é uma ferramenta séria de prevenção, e não um detalhe.

Já teve zóster e a dor continua?

Agendar pelo WhatsApp

Dúvidas que eu escuto com frequência

"Já tive zóster. Ainda preciso?"

O CDC recomenda a vacina também para quem já teve zóster. Não se aplica durante o episódio ativo. Quanto tempo esperar depois é uma decisão a combinar com o médico.

"Não lembro se tive catapora."

Para adultos de 50 anos ou mais com imunidade saudável, o CDC informa que não é preciso investigar a catapora nem fazer exame antes de vacinar.

"A vacina dá reação?"

As mais comuns são dor, vermelhidão e inchaço no braço, cansaço, dor no corpo, dor de cabeça, calafrio, febre e enjoo. Costumam durar dois a três dias.

"Alguém não pode tomar?"

Quem teve alergia grave a algum componente ou a uma dose anterior, quem está com zóster ativo, e gestantes, que devem esperar. Outras situações são avaliadas caso a caso.

Se a pessoa já tomou uma vacina mais antiga contra o zóster, de vírus vivo atenuado, também pode receber a recombinante, respeitando um intervalo mínimo. Isso é avaliado na consulta.

Também vale lembrar que o zóster no rosto pode atingir o olho e exigir cuidado urgente. Escrevi sobre isso no artigo sobre zóster no rosto e perto do olho. Prevenir evita também esse tipo de complicação.

Onde a vacina entra na conversa

A indicação, o momento e o local de aplicação devem ser combinados com o seu médico. A disponibilidade na rede pública e nas clínicas de vacinação pode mudar, então vale confirmar no momento da decisão.

  • Leve a carteirinha de vacinação, se tiver.
  • Conte se já teve zóster, quando foi e como foi.
  • Informe doenças e remédios que mexem com a imunidade.
  • Pergunte sobre o intervalo entre as doses e as reações esperadas.

E se o zóster já aconteceu e deixou dor, a vacina não trata essa dor. Nesse caso, o caminho é avaliar a dor do nervo. Explico isso no artigo sobre a dor que fica depois do zóster.

Leia também

Referências

  1. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Shingles Vaccine Recommendations. Disponível em: https://www.cdc.gov/shingles/hcp/vaccine-considerations/index.html
  2. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Shingles Vaccination. Disponível em: https://www.cdc.gov/shingles/vaccines/index.html
  3. Lal H, Cunningham AL, Godeaux O, et al. N Engl J Med. 2015;372(22):2087-2096. Efficacy of an adjuvanted herpes zoster subunit vaccine in older adults. Disponível em: https://doi.org/10.1056/NEJMoa1501184
  4. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Shingles Symptoms and Complications. Disponível em: https://www.cdc.gov/shingles/signs-symptoms/index.html

Dra. Adriana Abrão — Neurocirurgiã — CRM-GO 19.199 · RQE 15.914. Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou promessa de resultado. Não substitui avaliação médica individualizada.