Em resumo
  • Envelhecer muda o corpo, mas dor persistente não é um destino obrigatório da idade.
  • Dor no idoso tem causa, e essa causa pode ser investigada com o mesmo cuidado que se dá a qualquer outra queixa.
  • Tratar a dor protege o que mais importa nessa fase: sono, movimento e autonomia.

"Doutora, é a idade, né?" Ouço essa pergunta quase toda semana. Às vezes vem do próprio paciente. Muitas vezes vem do filho ou da filha que o acompanha, já cansados de ver o pai deixar de caminhar, de ir à missa, de visitar os netos.

Eu entendo de onde vem essa ideia. Mas a minha resposta é direta: não é normal idoso sentir dor. Envelhecer é normal. Sentir dor todos os dias, não.

"É da idade" não é diagnóstico

Com os anos, os discos da coluna perdem água, as articulações se desgastam, os nervos ficam mais sensíveis. Isso é real. Mas uma alteração no exame não explica, sozinha, por que uma pessoa sente dor e outra, com o mesmo exame, não sente.

Quando alguém diz "é da idade", a conversa costuma parar ali. Não se pergunta onde dói, desde quando, o que piora, o que melhora. E é justamente nessas perguntas que eu encontro a direção do tratamento.

Isso não significa que toda dor tenha uma causa simples ou que tudo tenha solução completa. Significa que a dor merece ser investigada antes de ser aceita.

Por que a dor costuma ser deixada de lado nessa fase

Na prática do consultório, vejo alguns motivos que se repetem. Nenhum deles é culpa do paciente, mas todos atrasam o cuidado.

  • O próprio idoso não quer "dar trabalho" e minimiza o que sente.
  • A família se acostuma com a queixa e passa a ouvir menos.
  • Outras doenças (pressão, diabetes, coração) ocupam o tempo da consulta, e a dor fica para depois.
  • Existe medo de remédio, de exame ou de cirurgia, e a pessoa prefere não perguntar.

O resultado é uma dor que vai se acomodando na rotina. A pessoa deixa de sair, dorme mal, se movimenta menos. E quem se movimenta menos tende a perder força e equilíbrio.

Dra. Adriana Abrão
"Envelhecer é normal. Sentir dor todos os dias, não."Dra. Adriana Abrão, neurocirurgiã

O que a dor tira do idoso

Quando penso em dor no idoso, penso menos na nota de zero a dez e mais no que ela tirou da vida daquela pessoa. É ali que eu meço o impacto e, depois, a melhora.

Sono

Acordar várias vezes à noite por dor deixa o dia seguinte mais pesado, e a dor costuma parecer maior.

Movimento

Quem evita andar por causa da dor perde condicionamento, e isso pesa no equilíbrio.

Autonomia

Tomar banho, ir ao mercado, sair sozinho. A dor pode ir tirando essas pequenas independências.

Convívio

Deixar de ir a encontros de família ou à igreja por medo de sentir dor também é um custo.

Alguém da sua família vive com dor e ouviu que "é da idade"?

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Como eu investigo a dor no idoso

Antes de tratar, eu preciso entender. No idoso, isso pede um pouco mais de tempo, porque a história costuma ser longa e cheia de camadas.

Pergunto onde a dor começa e para onde vai. Se é queimação, choque, peso ou pontada. Se piora em pé, andando, deitado ou ao toque da roupa. Cada resposta aponta para um tipo de dor diferente, e cada tipo tem um caminho de tratamento diferente.

Também peço a lista completa de remédios em uso, inclusive os que a pessoa toma "só de vez em quando". No idoso, saber o que já está sendo usado é parte do diagnóstico, não um detalhe.

Examino força, sensibilidade, reflexos e marcha. E só então olho os exames de imagem. O exame não conta a história inteira: ele precisa combinar com o que a pessoa sente e com o que eu encontro no exame físico.

Muitas dores comuns nessa fase têm origem na coluna, como o estreitamento do canal que faz a perna pesar ao andar. Outras vêm de um nervo, como a dor que fica depois do herpes-zóster. Saber qual é o mecanismo muda o tratamento.

Tratar com cuidado não é tratar menos

Existe um receio legítimo de tratar dor em quem tem mais idade: mais remédios, mais efeitos colaterais, mais risco de queda. Por isso existem orientações específicas para o uso de medicamentos para dor persistente em idosos, como as da Sociedade Americana de Geriatria.

Na prática, isso significa escolher com critério. Às vezes o melhor passo é ajustar o que já está em uso. Às vezes é associar fisioterapia e atividade orientada. Em alguns casos, um procedimento direcionado à origem da dor ajuda a reduzir a necessidade de remédios.

O que costuma atrasar o cuidado

Aceitar a dor como parte da idade, somar remédios sem revisar o que já se usa e evitar a consulta por medo de cirurgia.

O que ajuda a decidir melhor

Entender o tipo de dor, revisar a lista de remédios, considerar o conjunto de tratamentos e combinar metas realistas com a família.

Nem todo paciente precisa de procedimento, e muito menos de cirurgia. A resposta a cada tratamento varia de pessoa para pessoa. O objetivo é o mesmo: menos dor, mais movimento e mais independência possível.

Na minha prática, a abordagem multidisciplinar e a educação em dor fazem parte do plano, e as opções de tratamento da dor crônica são discutidas com o paciente e com quem cuida dele.

Um recado para a família

Se o seu pai ou a sua mãe reclama de dor há meses, ou parou de fazer coisas de que gostava, vale perguntar com calma o que está acontecendo. Muitas vezes o idoso só fala quando percebe que alguém está disposto a ouvir.

Levar a lista de remédios, os exames antigos e a observação de vocês sobre o dia a dia ajuda muito na consulta. Você não precisa aceitar isso como normal.

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Referências

  1. American Geriatrics Society Panel on Pharmacological Management of Persistent Pain in Older Persons. J Am Geriatr Soc. 2009;57(8):1331-46. Pharmacological management of persistent pain in older persons. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1532-5415.2009.02376.x
  2. Ministério da Saúde (Brasil). CONITEC. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica (versão resumida). Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/pcdt-resumido-da-dor-cronica

Dra. Adriana Abrão — Neurocirurgiã — CRM-GO 19.199 · RQE 15.914. Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou promessa de resultado. Não substitui avaliação médica individualizada.