Em resumo
  • No idoso, cada remédio a mais aumenta a chance de efeitos como tontura, sonolência, confusão e quedas.
  • Antes de acrescentar algo para a dor, vale revisar tudo o que já está em uso.
  • Entender de onde a dor vem pode permitir tratar com menos remédios, não com mais.

A sacola chega antes do paciente. Muitas vezes é assim que começa a consulta: a filha coloca sobre a mesa um saco cheio de caixas de remédio. Um para a pressão, outro para dormir, dois para dor, um relaxante "que o vizinho indicou".

E a pergunta que vem em seguida quase nunca muda: "Doutora, não tem um remédio mais forte?"

Eu entendo o pedido. Quem convive com dor quer alívio. Mas, no idoso, a resposta mais cuidadosa costuma ser outra pergunta: o que já está sendo tomado, e por quê?

Por que o idoso é mais sensível aos remédios

Com a idade, o corpo muda a forma como recebe e elimina os medicamentos. Rins e fígado trabalham em outro ritmo. Uma dose que um adulto jovem tolera bem pode pesar mais em quem tem 75 ou 80 anos.

Além disso, o idoso costuma usar remédios para várias condições ao mesmo tempo. Quanto maior a lista, maior a chance de um interferir no outro ou de os efeitos colaterais se somarem.

A Sociedade Americana de Geriatria mantém uma lista, revisada periodicamente, de medicamentos que em geral devem ser evitados ou usados com muita cautela em pessoas com 65 anos ou mais. Vários deles aparecem com frequência no tratamento da dor.

Quais efeitos merecem atenção

Não cito nomes de remédio aqui de propósito: cada caso tem sua lista e sua história. Mas alguns sinais devem acender uma luz amarela na família.

  • Sonolência durante o dia ou "moleza" que não existia antes.
  • Tontura ao levantar, desequilíbrio ou uma queda recente.
  • Confusão, esquecimento novo ou mudança de comportamento.
  • Intestino preso, náusea, azia ou dor no estômago.
  • Pressão ou inchaço que pioraram depois de um remédio novo.

Esses efeitos são citados nas orientações para idosos justamente porque podem ser confundidos com "coisa da idade". E uma queda, nessa fase, pode tirar a autonomia mais do que a própria dor.

Dra. Adriana Abrão
"No idoso, a resposta mais cuidadosa costuma ser outra pergunta: o que já está sendo tomado, e por quê?"Dra. Adriana Abrão, neurocirurgiã

Os grupos que costumam pedir mais cautela

Entre os medicamentos que as orientações geriátricas apontam como de maior cuidado no idoso, alguns fazem parte do dia a dia de quem tem dor.

Anti-inflamatórios de uso contínuo

Podem afetar estômago, rins e pressão. Uso prolongado pede avaliação médica.

Relaxantes musculares

Costumam causar sonolência e tontura, o que aumenta o risco de queda.

Remédios para dormir e calmantes

Podem deixar a pessoa mais lenta, confusa e instável ao andar.

Vários remédios que dão sono juntos

A soma de medicamentos que agem no sistema nervoso multiplica o risco de quedas.

Isso não significa que esses remédios sejam proibidos. Significa que a decisão de usá-los precisa ser individual, com dose, tempo e objetivo bem definidos. Nunca suspenda um remédio por conta própria: alguns precisam ser retirados aos poucos, com orientação.

A lista de remédios para dor só cresce e a dor continua?

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Mais um remédio ou a causa da dor?

Quando um remédio para dor não funciona, a tendência é acrescentar outro. Às vezes o problema não é a força do remédio. É que ele não combina com o tipo de dor.

A dor que vem de um nervo, como a que fica depois do herpes-zóster ou a que desce para a perna, responde a tratamentos diferentes da dor de uma articulação. Tratar uma como se fosse a outra gera frustração e mais caixas na sacola.

Por isso, antes de tratar, eu preciso entender. Qual é o mecanismo dessa dor? De onde ela vem? O que ela impede a pessoa de fazer? Com essas respostas, o plano costuma ficar mais enxuto.

Quando um procedimento entra na conversa

Em alguns casos, um procedimento direcionado à origem da dor, como um bloqueio guiado por imagem, pode reduzir a dor e, com isso, a necessidade de alguns remédios. É uma das possibilidades do tratamento intervencionista da dor.

Não é indicado para todos, e a resposta varia de pessoa para pessoa. A decisão depende do diagnóstico, das outras doenças, dos remédios em uso e do que o paciente e a família esperam.

Somar remédios

Pode trazer alívio parcial, mas aumenta efeitos colaterais, interações e risco de queda, principalmente se o tipo de dor não foi identificado.

Revisar e tratar a causa

Começa pela lista completa, pelo diagnóstico do mecanismo da dor e pela combinação de recursos: remédio certo, movimento orientado e, quando faz sentido, procedimento.

Como se preparar para a consulta

A melhor ajuda que a família pode dar é levar informação. Uma consulta de dor crônica no idoso rende muito mais quando eu sei exatamente o que está em uso.

  • Todas as caixas ou receitas, inclusive vitaminas, chás e remédios "de vez em quando".
  • Horário em que cada um é tomado.
  • O que já foi usado para dor e não funcionou, ou deu efeito colateral.
  • Quedas, tonturas ou mudanças de comportamento recentes.

Tratar dor no idoso é encontrar equilíbrio: aliviar o suficiente para devolver movimento e autonomia, com o menor risco possível. Às vezes isso significa tirar um remédio, e não acrescentar.

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Referências

  1. 2023 American Geriatrics Society Beers Criteria Update Expert Panel. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-81. American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. Disponível em: https://doi.org/10.1111/jgs.18372
  2. American Geriatrics Society Panel on Pharmacological Management of Persistent Pain in Older Persons. J Am Geriatr Soc. 2009;57(8):1331-46. Pharmacological management of persistent pain in older persons. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1532-5415.2009.02376.x

Dra. Adriana Abrão — Neurocirurgiã — CRM-GO 19.199 · RQE 15.914. Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou promessa de resultado. Não substitui avaliação médica individualizada.