Em resumo
  • Conviver com a dor é organizar a vida para seguir fazendo o que importa. Conformar-se é parar de buscar entender de onde ela vem.
  • A dor é uma experiência pessoal e real, mesmo quando o exame "não mostra nada".
  • Adaptar a rotina e continuar investigando podem, e devem, andar juntos.

"Já aprendi a conviver." Escuto essa frase com frequência, dita com um sorriso cansado. Depois, conversando, aparece o resto: a pessoa parou de caminhar, deixou de viajar, não pega mais o neto no colo. E não faz uma consulta sobre a dor há anos.

Existe uma diferença entre conviver com a dor e se conformar com ela. Essa diferença costuma definir se o tratamento ainda tem para onde ir.

O que é conviver

Conviver é uma atitude ativa. A pessoa entende a sua dor, sabe o que piora e o que ajuda, ajusta o ritmo e segue fazendo o que é importante para ela. Isso é saudável, e muitas vezes faz parte do próprio tratamento.

Na dor crônica, aprender a lidar com ela é uma ferramenta, não uma derrota. Dosar esforço, manter o corpo em movimento, dormir melhor e entender o que acontece no próprio corpo ajudam de verdade.

O que é se conformar

Conformar-se é diferente. É quando a pessoa conclui que não há mais o que entender nem o que tentar. A dor deixa de ser uma pergunta e vira uma sentença.

Muitas vezes isso não nasce do paciente. Nasce de frases que ele ouviu pelo caminho: "é da idade", "o exame está normal", "isso não tem tratamento", "você vai ter que se acostumar".

O problema é que, quando a pessoa se conforma, a dor pode mudar sem que ninguém perceba. Uma dor que começou na articulação pode ganhar um componente de nervo, por exemplo, e o tratamento antigo deixa de servir.

Conviver

Adapto a rotina, mas continuo atenta. Se a dor muda, piora ou me impede de viver, eu volto a investigar.

Se conformar

Paro de perguntar. Aceito a dor como definição de quem eu sou e deixo de procurar entender de onde ela vem.

Dra. Adriana Abrão
"Existe uma diferença entre conviver com a dor e se conformar com ela."Dra. Adriana Abrão, neurocirurgiã

A sua dor é real, mesmo sem "cara de dor"

Uma paciente me disse uma vez que o pior de viver com dor era ouvir das pessoas que ela não tinha cara de dor. Essa frase resume muito do que quem tem dor crônica enfrenta.

Em 2020, a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) revisou a definição de dor. Uma das notas diz que a dor é sempre uma experiência pessoal, influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais, e que o relato da pessoa deve ser respeitado.

Na prática, isso quer dizer duas coisas. Primeiro: eu acredito na sua dor. Segundo: o fato de um exame não explicar tudo não significa que não haja nada a investigar.

Você já ouviu que "vai ter que se acostumar" com a sua dor?

Agendar pelo WhatsApp

Sinais de que a convivência virou conformismo

Não existe uma linha exata, mas alguns sinais aparecem com frequência em quem chega ao consultório depois de anos de dor.

  • A lista de coisas que você deixou de fazer só aumenta.
  • A dor mudou de lugar, de tipo ou de intensidade, e ninguém reavaliou.
  • O sono piorou e o cansaço virou rotina.
  • Você toma remédio para dor todos os dias sem saber exatamente para que tipo de dor ele serve.
  • A última vez que alguém examinou você por causa da dor foi há muito tempo.

Como eu retomo a investigação

Quando alguém chega dizendo que já aprendeu a conviver, eu não começo pelo exame. Começo pela história: onde dói, como é essa dor, como ela começou, o que já foi feito e o que aconteceu com cada tentativa.

A dor pode ter mecanismos diferentes. Pode vir de uma articulação, de um nervo, de uma alteração na forma como o sistema nervoso processa os sinais, ou de uma combinação disso. Cada mecanismo pede um caminho de tratamento.

O primeiro passo é entender de onde essa dor vem. A partir daí, o plano pode incluir ajuste de remédios, reabilitação, educação em dor e, para alguns casos, procedimentos. A resposta varia de pessoa para pessoa.

Entender

Identificar o tipo de dor e a provável origem, com exame clínico e, quando necessário, exames complementares.

Adaptar

Ajustar a rotina para continuar se movimentando, sem esperar a dor sumir para voltar a viver.

Tratar

Combinar recursos de acordo com o mecanismo, e não apenas somar remédios.

Reavaliar

Medir o que mudou na vida, não só na nota da dor, e corrigir a rota quando preciso.

Aceitar não é desistir

Algumas dores não desaparecem por completo. Dizer isso com honestidade faz parte do meu trabalho. Mas reduzir a dor, devolver o sono, voltar a caminhar ou retomar uma atividade já muda a vida de alguém.

Quem convive bem com a dor costuma ter um plano: sabe o que fazer num dia pior, sabe quando procurar ajuda e sabe o que esperar de cada tratamento. Esse plano é construído junto, consulta a consulta.

Conviver bem com a dor é possível. Conformar-se com ela, sem entender de onde vem, não precisa ser o seu caminho. Você pode conhecer como funciona o cuidado multidisciplinar e a educação em dor e ler mais sobre dor crônica.

Leia também

Referências

  1. Raja SN, Carr DB, Cohen M, et al. Pain. 2020;161(9):1976-82. The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises. Disponível em: https://doi.org/10.1097/j.pain.0000000000001939
  2. International Association for the Study of Pain (IASP). 2020. IASP Announces Revised Definition of Pain. Disponível em: https://www.iasp-pain.org/publications/iasp-news/iasp-announces-revised-definition-of-pain/

Dra. Adriana Abrão — Neurocirurgiã — CRM-GO 19.199 · RQE 15.914. Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou promessa de resultado. Não substitui avaliação médica individualizada.