- Na cirurgia endoscópica, o cirurgião trabalha por uma incisão pequena, guiado por uma câmera que amplia a imagem dentro da coluna.
- Ela é uma forma de operar, não um motivo para operar. A indicação vem antes, da combinação entre queixa, exame físico e imagem.
- É considerada principalmente em compressões de nervo bem localizadas, como algumas hérnias de disco. Não serve para todos os casos, e a resposta varia de pessoa para pessoa.
Muita gente chega ao consultório já decidida a não operar porque imagina a cirurgia de coluna como algo enorme: corte grande, semanas de cama, colete. Outras chegam pedindo "aquela cirurgia por vídeo" como se ela resolvesse qualquer problema.
As duas ideias estão incompletas. Neste texto, quero explicar o que é a cirurgia endoscópica da coluna, em que situações ela entra na conversa e, tão importante quanto, quando ela não é a escolha certa.
O que é, em linguagem simples
Na cirurgia endoscópica, o cirurgião acessa a coluna por uma incisão pequena. Por ela passa um tubo fino com uma câmera e um canal de trabalho. A imagem ampliada aparece em um monitor.
Com essa visão, é possível retirar o fragmento do disco ou o tecido que está comprimindo o nervo, afastando o mínimo possível os músculos ao redor. A lógica é tratar a compressão mexendo o menos possível no que está saudável.
Ela faz parte de um grupo maior, as técnicas de cirurgia minimamente invasiva. Cada técnica tem situações em que funciona melhor. A escolha depende do problema, do local e da anatomia de cada pessoa.
A técnica não muda a regra
Esta é a parte que mais gosto de explicar. Uma cirurgia menor não torna a cirurgia mais indicada. Se a pessoa não tem indicação para operar por via aberta, também não tem por via endoscópica.
A indicação vem da correlação entre a queixa, o exame físico e a imagem. Só depois de decidir que operar faz sentido é que se discute por qual via. Tratamento não começa no procedimento. Começa no diagnóstico.
E, na maior parte das vezes, a decisão é não operar. A maioria das hérnias de disco melhora sem cirurgia, com tempo, movimento e tratamento adequado da dor.

"Uma cirurgia menor não torna a cirurgia mais indicada."Dra. Adriana Abrão, neurocirurgiã
Para quem ela costuma ser considerada
A endoscopia entra na conversa quando já existe indicação de cirurgia e o problema é uma compressão de nervo bem localizada. O exemplo mais comum é a hérnia de disco lombar que causa dor descendo pela perna.
- dor que desce pela perna e combina com a raiz comprimida no exame;
- imagem que mostra uma compressão compatível com essa queixa;
- tratamento sem cirurgia bem conduzido, que não trouxe melhora suficiente;
- ou perda de força que exige descomprimir o nervo.
Mesmo dentro desse grupo, a posição da hérnia, o tamanho e a anatomia de cada pessoa podem favorecer ou não a via endoscópica. É uma avaliação feita caso a caso.
Quer saber se a cirurgia é mesmo necessária no seu caso?
Agendar pelo WhatsAppPara quem ela não é a opção
Há situações em que a endoscopia não é a melhor escolha, ou não é possível. Dizer isso faz parte de uma indicação honesta.
Sem indicação cirúrgica
Dor nas costas sem compressão de nervo que explique a queixa, ou imagem alterada sem relação com o que a pessoa sente.
Instabilidade da coluna
Quando uma vértebra escorrega ou a coluna precisa ser estabilizada, outras técnicas costumam ser necessárias.
Problemas mais extensos
Compressões em vários níveis ou deformidades podem pedir outra abordagem, às vezes também minimamente invasiva.
O que os estudos mostram
Um estudo feito em quatro hospitais da Holanda comparou a cirurgia endoscópica com a cirurgia aberta convencional em pessoas com ciática por hérnia de disco lombar.
Depois de um ano, a dor na perna no grupo da endoscopia não foi pior que a do grupo da cirurgia aberta. O grupo da endoscopia teve menos sangramento, internação mais curta e começou a se movimentar mais cedo.
O mesmo estudo mostrou que nova cirurgia em até um ano aconteceu em proporções parecidas nos dois grupos. Ou seja: a técnica menor não elimina os riscos de uma cirurgia de coluna. Eles existem e precisam ser conversados.
Incisão menor, menos agressão aos músculos e, em geral, recuperação inicial mais leve, quando o caso permite.
A necessidade de indicação correta, os riscos de toda cirurgia e a reabilitação depois dela.
Como costuma ser a recuperação
Em muitos casos, a pessoa se levanta e caminha no mesmo dia ou no dia seguinte. Mas o tempo de retorno ao trabalho e às atividades varia com o tipo de trabalho, o quadro antes da cirurgia e a própria evolução.
A reabilitação continua importante. Fortalecer a musculatura e voltar ao movimento de forma orientada faz parte do tratamento, com qualquer técnica.
A pergunta que eu faço antes de falar em técnica
Quando alguém me pergunta se pode "fazer a endoscópica", eu devolvo outra pergunta: o que está causando a sua dor? Se a resposta for uma compressão de nervo que explica tudo, falamos de cirurgia e de qual via. Se não for, o caminho é outro.
Meu trabalho não é operar. É descobrir o que faz sentido para você.
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Referências
- Gadjradj PS, Rubinstein SM, Peul WC, et al. BMJ. 2022. Full endoscopic versus open discectomy for sciatica: randomised controlled non-inferiority trial. Disponível em: https://doi.org/10.1136/bmj-2021-065846
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE, Reino Unido). 2016. Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management (NG59). Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng59/chapter/Recommendations
Dra. Adriana Abrão — Neurocirurgiã — CRM-GO 19.199 · RQE 15.914. Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou promessa de resultado. Não substitui avaliação médica individualizada.