Em resumo
  • Cirurgia de coluna dificilmente deixa as pessoas na cadeira de rodas. Mas toda cirurgia tem riscos, e eles precisam ser conversados.
  • A maior parte das pessoas com dor na coluna não precisa operar. A indicação vem da combinação entre queixa, exame físico e imagem.
  • Técnicas menos invasivas reduzem a agressão aos tecidos, mas não tornam a cirurgia indicada para todos. A resposta varia de pessoa para pessoa.

"Doutora, a cirurgia pode me deixar na cadeira de rodas?" É uma das perguntas que mais escuto. Às vezes vem logo no começo da consulta, antes mesmo de a pessoa contar onde dói.

Eu entendo de onde vem esse medo. Quase todo mundo conhece alguém que "operou a coluna e ficou pior", ou ouviu uma história assim. E a coluna carrega a ideia de que qualquer coisa ali é perigosa demais.

Por isso, quero responder com a mesma honestidade com que respondo no consultório: sem minimizar o risco e sem aumentar o medo.

A resposta curta

Cirurgia de coluna dificilmente deixa as pessoas na cadeira de rodas. Na maior parte das cirurgias mais comuns, como as de hérnia de disco e de estreitamento do canal, a operação é feita em torno dos nervos, para tirar o que os comprime.

Isso não significa risco zero. Toda cirurgia tem riscos: infecção, sangramento, lesão de nervo, a dor não melhorar como esperado, a necessidade de operar de novo. Eles existem, variam conforme o caso, e devem ser explicados antes de qualquer decisão.

O que eu peço é que o medo seja trocado por informação. Você tem o direito de perguntar quais são os riscos no seu caso, e de entender por que a cirurgia está sendo proposta.

A primeira pergunta é outra: precisa operar?

Antes de falar de risco cirúrgico, eu preciso saber se a cirurgia faz sentido. E, na maioria das vezes, não faz. Eu frequentemente digo para o paciente NÃO operar.

Um estudo holandês comparou pessoas com ciática intensa operadas cedo com pessoas tratadas sem cirurgia, que só operavam se fosse necessário. Depois de um ano, os resultados foram parecidos nos dois grupos. A cirurgia antecipou o alívio da dor da perna.

Ou seja: em muitas situações, operar é uma escolha entre caminhos possíveis, não uma obrigação. E essa escolha depende do quanto a dor limita a vida, do tempo de evolução e do que a pessoa prefere.

Dra. Adriana Abrão
"Eu frequentemente digo para o paciente NÃO operar."Dra. Adriana Abrão, neurocirurgiã

Como a decisão é tomada

O exame não conta a história inteira. Hérnia de disco aparece em ressonância de muita gente que não sente dor nenhuma. Por isso eu não indico cirurgia pela imagem. Eu indico quando três coisas apontam para o mesmo lugar:

  • a queixa: onde dói, como dói, até onde a dor desce;
  • o exame físico: força, sensibilidade, reflexos, testes que provocam a dor do nervo;
  • a imagem: uma compressão que explique exatamente aquela queixa.

Além disso, considero o que já foi tentado. Diretrizes internacionais orientam considerar a descompressão quando o tratamento sem cirurgia não melhorou a dor ou a função e a imagem é compatível com os sintomas.

Existe uma exceção importante: quando há perda de força que piora, ou alteração para urinar e evacuar. Nesses casos, a cirurgia pode ser necessária com mais urgência, justamente para proteger o nervo.

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O que muda com técnicas menos invasivas

Quando a cirurgia é indicada, a forma de operar também entra na conversa. A cirurgia minimamente invasiva busca tratar o problema com a menor agressão possível aos músculos e tecidos ao redor da coluna.

A cirurgia endoscópica vai além: usa uma incisão pequena e uma câmera que leva a imagem ampliada ao cirurgião. Em um estudo com mais de 600 pessoas com ciática, ela teve resultado não inferior à cirurgia aberta, com menos sangramento e internação mais curta.

Mas aqui vale uma frase que repito muito: ser minimamente invasiva não amplia a indicação. Uma técnica menor não transforma em cirúrgico um caso que não é. E nem toda situação pode ser tratada por endoscopia.

O que a técnica menor pode mudar

Menos agressão aos tecidos, em geral menos sangramento, internação mais curta e retorno às atividades mais cedo, quando o caso permite.

O que ela não muda

A necessidade de uma indicação correta, a existência de riscos e o fato de que o resultado varia de pessoa para pessoa.

Perguntas que vale levar para a consulta

  • O que, exatamente, está causando a minha dor?
  • O que acontece se eu não operar agora?
  • Quais são os riscos no meu caso, e quão frequentes são?
  • Por qual técnica, e por que essa?
  • Como deve ser a recuperação e a reabilitação depois?

O medo que também atrasa

Existe um outro lado que eu preciso dizer. Às vezes o medo da cadeira de rodas faz a pessoa adiar uma avaliação mesmo quando há perda de força no pé ou dificuldade para urinar. Nesses casos, esperar é que pode trazer prejuízo.

Não é porque se fala em cirurgia que a decisão já está tomada. Uma consulta serve para entender o que está acontecendo, conhecer as opções, com e sem cirurgia, e decidir junto.

Meu trabalho não é operar. É descobrir o que faz sentido para você. Às vezes isso é cirurgia. Muitas vezes, não.

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Referências

  1. Peul WC, van Houwelingen HC, van den Hout WB, et al. New England Journal of Medicine. 2007. Surgery versus prolonged conservative treatment for sciatica. Disponível em: https://doi.org/10.1056/NEJMoa064039
  2. Gadjradj PS, Rubinstein SM, Peul WC, et al. BMJ. 2022. Full endoscopic versus open discectomy for sciatica: randomised controlled non-inferiority trial. Disponível em: https://doi.org/10.1136/bmj-2021-065846
  3. National Institute for Health and Care Excellence (NICE, Reino Unido). 2016. Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management (NG59). Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng59/chapter/Recommendations

Dra. Adriana Abrão — Neurocirurgiã — CRM-GO 19.199 · RQE 15.914. Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou promessa de resultado. Não substitui avaliação médica individualizada.