- Não existe um tempo fixo. O efeito de um bloqueio depende do alvo, da técnica, do que foi aplicado e da causa da dor.
- Alguns bloqueios servem para confirmar de onde vem a dor (diagnósticos). Outros buscam aliviar por um período (terapêuticos). Muitas vezes, o mesmo procedimento cumpre os dois papéis.
- O bloqueio é uma etapa de um plano, não o tratamento inteiro. A resposta varia de pessoa para pessoa.
"Doutora, quanto tempo dura um bloqueio?" Essa é uma das perguntas que mais ouço. É justa: quem convive com dor quer saber quanto tempo de alívio pode esperar antes de decidir fazer um procedimento.
A resposta honesta é que depende. E não é uma forma de fugir da pergunta. Depende de coisas bem concretas, que eu explico aqui, para que você chegue à consulta sabendo o que perguntar.
Primeiro: o que é um bloqueio
Um bloqueio é a aplicação de medicamento em um alvo específico: uma raiz nervosa, uma articulação da coluna, um nervo periférico. Em geral, usa-se um anestésico local e, em alguns casos, um anti-inflamatório.
Nos procedimentos guiados, a agulha é posicionada com auxílio de imagem, como ultrassom ou raio-X. Isso aumenta a precisão para chegar ao ponto que se quer tratar.
Dois tipos de pergunta, dois tipos de bloqueio
O que mais confunde as pessoas é que nem todo bloqueio tem o mesmo objetivo. Alguns são feitos para responder a uma pergunta. Outros, para aliviar.
Serve para confirmar de onde vem a dor. Se a dor melhora com o anestésico naquele alvo, temos uma pista forte de que a origem está ali. O alívio pode durar só horas, e mesmo assim cumprir o papel.
Busca reduzir a dor por um período, para que a pessoa consiga fazer reabilitação, dormir melhor e retomar atividades. A duração varia bastante.
Um exemplo: diretrizes do Reino Unido orientam que a radiofrequência para dor lombar só seja feita depois de uma resposta positiva a um bloqueio diagnóstico. O bloqueio responde à pergunta antes do próximo passo.

"Às vezes, o bloqueio que alivia por poucas horas foi o que mais me ensinou sobre a dor do paciente."Dra. Adriana Abrão, neurocirurgiã
Às vezes, o bloqueio que alivia por poucas horas foi o que mais me ensinou sobre a dor do paciente. Ele mostrou o caminho. Por isso, um alívio curto não significa, necessariamente, que o procedimento "não funcionou".
Do que depende a duração
- do alvo: nervo, raiz, articulação ou músculo respondem de formas diferentes;
- do que foi aplicado: anestésico sozinho ou associado a anti-inflamatório;
- da causa da dor: inflamação aguda de um nervo é diferente de uma dor que já dura anos;
- de há quanto tempo a dor existe e do quanto o sistema nervoso já se "acostumou" a ela;
- do que acontece depois: reabilitação, movimento, sono e controle de outros fatores.
Por isso eu não gosto de prometer um número de semanas ou meses. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter respostas bem diferentes ao mesmo procedimento.
Quer entender se um bloqueio faz sentido para a sua dor?
Agendar pelo WhatsAppO que os estudos dizem sobre o alívio
Os estudos também mostram por que não dá para tratar o bloqueio como solução isolada. Uma grande revisão sobre injeções na coluna para dor ciática encontrou benefício pequeno e de curto prazo, sem diferença clara a longo prazo.
Isso não quer dizer que o bloqueio não tenha valor. Quer dizer que o valor dele está no que ele permite fazer: confirmar a origem da dor, abrir uma janela de alívio para reabilitar, ajudar a decidir o próximo passo.
E, como qualquer procedimento, ele tem riscos, em geral pouco frequentes, que precisam ser explicados antes: dor no local, sangramento, infecção, reação ao medicamento. A conversa sobre riscos faz parte da indicação.
O bloqueio é uma etapa, não o tratamento
Tratamento não começa no procedimento. Começa no diagnóstico. O bloqueio entra quando a avaliação identifica um alvo que justifique intervir, e convive com reabilitação, atividade física e o que mais estiver descompensado.
Dentro do tratamento intervencionista da dor, ele pode abrir caminho para outros passos, como a radiofrequência, quando o bloqueio diagnóstico confirma o alvo.
Quando alguém me diz "já fiz bloqueio e não adiantou", eu quero saber: qual era o alvo? Qual era o objetivo? O que veio depois? Muitas vezes a resposta mostra que faltou direção, não tratamento.
E se a dor voltar?
É comum a dor voltar depois de um tempo. Isso não significa, por si só, que o bloqueio foi um erro. A pergunta que importa é o que aconteceu nesse intervalo e o que aprendemos sobre a origem da dor.
Se o bloqueio confirmou o alvo, isso pode orientar o próximo passo. Se não houve resposta, também é uma informação: talvez a dor venha de outro lugar, e a investigação precisa continuar.
O que eu evito é repetir o mesmo procedimento várias vezes sem rever o plano. Cada etapa precisa ter um objetivo claro.
O que perguntar antes de fazer
- Este bloqueio é para confirmar a origem da dor, para aliviar, ou para os dois?
- Qual é o alvo, e por que esse alvo?
- O que vamos fazer se ele funcionar, e se não funcionar?
- Quais são os riscos no meu caso?
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Referências
- Chou R, Hashimoto R, Friedly J, et al. Agency for Healthcare Research and Quality (EUA). 2015. Pain Management Injection Therapies for Low Back Pain (Technology Assessment). Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25879124/
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE, Reino Unido). 2016. Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management (NG59). Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng59/chapter/Recommendations
Dra. Adriana Abrão — Neurocirurgiã — CRM-GO 19.199 · RQE 15.914. Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou promessa de resultado. Não substitui avaliação médica individualizada.